sexta-feira, 18 de maio de 2012

Cinema - "Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios"- Beto Brant e Renato Ciasca

  
Sexto longa-metragem do diretor Beto Brant, "Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios" narra o trágico triângulo amoroso vivido por um fotógrafo, uma ex-viciada e seu marido - pastor comprometido com as causas indígenas no interior do Brasil. Camila Pitanga interpreta a adúltera, dividida entre o amor carnal sentido por Cauby e os sentimentos nobres por Ernani, homem mais velho que lhe livrou da prostituição. Baseado no livro de Marçal Aquino, o filme mostra Camila Pitanga em sua melhor atuação no cinema, uma personagem que ama demais, deseja demais e se drogou demais. Beto Brant tem o mérito de explorar todo o potencial erótico da atriz sem cair na vulgaridade, cada tórrida cena filmada é necessária
para incluir o espectador no cárcere afetivo vivido pelos dois amantes.
Outro ponto alto da narrativa é a visão quase documental sobre o cotidiano dos moradores da região, mergulhada em pobreza e explorada economicamente pelos madereiros; o filme sugere que em ambos núcleos, o social e amoroso, algo vai explodir. Renato Ciasca divide com Beto Brant o roteiro e direção.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

A volta dos Vinis(12)- PJ Harvey & John Parish - "A woman a man walked by"


PJ harvey e John Parish retomam uma antiga parceria profícua: o músico britânico participou de seis albúns da cantora, além de atuar como músico de sua banda entre 1994 e 1999. "A woman a man walked by" traz a mesma Polly de sempre, perfeita ao navegar em um tema contínuo em sua carreira: a perda. Seja da mãe pelo filho morto em "The chair" ou de uma catástrofe emocional anunciada em "leaving California", onde canta: "California killed me/ I think it's time to leave/ I told no one I'd stay". Em "16, 15,14", duas crianças brincam de esconde-esconde, o sol se põe e nenhuma delas tem motivos para sorrir.
"A woman a man walked by" traz uma sonoridade sombria, avessa ao sol californiano e de acordo com as nuvens peremptórias das paisagens inglesas - as origens da pálida PJ Harvey. Músicas com acordes menores, riffs melancólicos repetidos a exaustão. John Parish é responsável pelas composições, Polly escreveu todas as letras. No formato vinil, com a capa de papel e uma enigmática e instigante foto da dupla estampada, segue um encarte com as letras.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Cinema - "Roleta chinesa" - Fassbinder




Filme realizado para a TV em 1976, “A roleta chinesa” também poderia ser chamada de “Adultério à alemã”; Fassbinder desfila toda a hipocrisia da classe burguesa ao retratar um matrimonio que coincide com seus respectivos amantes na velha mansão de veraneio da família. O encontro foi secretamente planejado pela filha do casal . A inusitada situação não provocaria danos morais aos envolvidos se a própria filha não resolvesse estar presente.
Durante a estadia, a jovem propõe a todos jogar roleta chinesa – uma espécie de jogo da verdade, em que um grupo tenta adivinhar com perguntas de caráter simbólico, a identidade de uma pessoa escolhida. Então se desenrola toda a tensão emocional camuflada no falso moralismo burguês e na necessidade de se manter as convenções sociais. Com uma fotografia estilizada e a câmera com movimentos deslizantes que desnudam cada personagem, a película confirma a maturidade de Fassbinder como diretor. Destaque para o diálogo entre o marido e o amante da esposa; “Você a ama?” – pergunta o rapaz - “Estou acostumado a ela..” – responde o esposo. “ Estar acostumado a uma pessoa e viver com ela, também não é amor?” – Conclui o amante.
Sábio Fassbinder.

Literatura Noir (6) - Raymond Chandler "Amor e morte em Poodle Springs"




Raymond Chandler não viveu para terminar sua ultima novela: “Amor e morte em Poodle Springs” permaneceu na gaveta de seus herdeiros por 30 anos, até ser lançada em 1989. A obra foi acabada pelo celebrado autor Robert Parker, um dos grandes estudiosos, admiradores e discípulos de Chandler. Escrita em 1959, o livro não possui a mesma grandiosidade de “O sono eterno” e “O longo adeus” – esse, considerado um dos maiores romances da literatura americana do século XX.
É a última aparição do mítico detetive Philip Marlowe, agora devidamente casado com uma milionária californiana e instalado em uma cinematográfica mansão nos arredores de Hollywood. O conflito interno de Marlowe por ter como esposa uma mulher mergulhada em dinheiro acompanha toda a narrativa. Entre diálogos simples e diretos, ela insiste em convencê-lo a deixar seu escritório e o detetive – cínico como de costume – rejeita a idéia em nome do orgulho e da opção profissional que fez. Em uma tarde, Marlowe recebe a visita de Lipshultz - um proprietário de casas noturnas metido em jogo e outras ações delitivas; alguém lhe deve 100 mil dólares e Marlowe é encarregado de saber o paradeiro do indivíduo. Ao longo da procura, o detetive se depara com dois cadáveres, mulheres semi-desnudas à beira de ataques de nervos e seguranças fiéis ao passado de ex-boxeadores. Ao melhor estilo Chandler.
Trecho escolhido: “Os bêbados são criaturas frágeis. Precisam ser levados como um copo muito cheio; é só entornar para qualquer lado, e eles derramam tudo. Eu os conhecia. Passara a metade da vida conversando com bêbados em bares como aquele".

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Cinema - "O palhaço" - Selton Mello


Segundo longa metragem de Selton Mello, "O palhaço" é um belo exemplo da continuidade da alta qualidade de produção que o cinema brasileiro vem desenvolvendo nos últimos dez anos. Selton é um dos melhores atores de sua geração, com mais de 30 anos de carreira e mostra parte desse aprendizado na direção e na coautoria do roteiro, também assinado por Marcelo Vindicatto.
Selton investe em uma proposta completamente distinta do seu primeiro filme como diretor; "Feliz natal", onde a carga dramática não oferece espaço ao humor e a cartilha realista de John Cassavettes é seguida a risca. "O palhaço" é um filme para rir, chorar, sair do cinema com a alma renovada e com a certeza de que o caminho a seguir por Selton ainda nos brindará com boas surpresas.
A escolha certeira da forma, elenco e na condução do roteiro é sentida logo nos primeiros planos do filme. Selton fez uma grande homenagem ao circo e também a aqueles que - fora dele - nos fizeram rir e esquecer um pouco da realidade lá fora: Ferrugem, Zé Bonitinho, Moacir Franco - entre outros - são alguns dos personagens que desfilam ao longo da película. A cena deste último, interpretando o "Delegado Justo" é uma das que vão se eternizar no cinema brasileiro.
O enredo é simples; uma trupe de circo viaja pelo interior do país; em cada cidade, um acontecimento, seja cômico ou não, que desemboca nas dúvidas e inquietações dos artistas e suas opções existenciais. Uma delas é fio condutor da história; o palhaço, personagem de Selton; filho do dono do Circo (interpretado por Paulo José), ele não sabe se essa é realmente a sua vocação, ou uma velada imposição do pai. Tudo se resolve no final.
Destaque para a trilha sonora de Plínio Profeta, inspirada em instrumentos e sonoridades da música balcânica e do nordeste brasileiro.

Literatura - "Hollywood"- Charles Bukowski



Bukowski sempre foi mais reconhecido na Europa do que nos Estados Unidos - país em que seus pais emigraram quando o escritor tinha apenas dois anos. Trabalhou com os mais variados ofícios até conseguir uma vaga na Empresa dos Correios de Los Angeles - cidade em que viveu por toda vida, geralmente frequentando os becos mais sórdidos, onde conheceu os personagens que permearam toda sua obra: os alcoólatras.
Bukowski viveu, bebeu e morreu em Los Angeles. Mas escreveu livros. Quarenta e cinco no total, entre prosa e poesia. A América nunca lhe dera o devido reconhecimento, talvez por medo de se reconhecer a si própria nos textos do autor; textos que externam a condição do homem americano disperso na premissa de que o mundo se divide entre "Losers X Winners".
Ele, Bukowski, venceu. Ou não teria seus livros traduzidos para dezenas de idiomas. É um paradoxo? Pode ser.
Aos 64 anos, o escritor recebeu o convite para criar um argumento de um filme a pedidos de um diretor francês; nunca escrevera nada além de contos, romance e poesia. À princípio a ideia lhe desagrada, Bukowski detestava cinema e ainda mais a indústria hollywoodiana. Mas a grana é boa e ele aceita.
"Hollywood" foi escrito em 1989 e narra todo o périplo do autor em criar o argumento, conviver com astros do cinema e as notórias dificuldades de se produzir um filme. Está tudo lá: produtores sem dinheiro, atrizes em crise profissional, diretores suicidas, magnatas endividados e lógico, muito álcool para suportar tantos egos e "personalidades". Um prato cheio para um especialista em diálogos rápidos, irônicos, certeiros.
Um livro indispensável de Bukowski, comparado pela crítica européia à Céline, Hemingway e Henri Muller.
Trechos escolhidos: "Eu morava num conjunto de casas populares na Carlton Way, perto da Western. Tinha cinquenta e oito anos e ainda tentava ser escritor profissional e vencer na vida apenas com a máquina de escrever. Iniciara esse curioso meio de vida aos cinquenta anos. Mas não se pode viver sempre escrevendo, e havia muito espaço a preencher. Eu o preenchia com uísque, cerveja e mulheres. Acabei me enchendo da maioria das mulheres e me econcentrei no uísque e na cerveja."
"O grande momento chegou. Pus a máquina de escrever em cima da mesa, encaixei uma folha de papel e bati nas teclas. A máquina ainda funcionava. E havia bastante espaço para um cinzeiro, o rádio e a garrafa. Não deixem ninguém convecê-los de outra coisa. A vida começa aos 65".

sábado, 15 de outubro de 2011

Festival do Rio : Cinema - "Funkytown" de Daniel Roby


"Montreal Limelight" foi um famoso nightclub canadense da década de 1970; uma espécie de Studio 54 dos vizinhos americanos. Alain Montpeitit era um ator e celebridade símbolo da era "disco" local - pode-se encontrar alguns vídeos do astro no youtube. O diretor Daniel Roby baseou-se na errática e trágica trajetória de Montpetit para realizar uma radiografia dessa geração regada a cocaína, Donna Summer e sexo desenfreado a poquíssimos anos da descoberta da AIDS.
"Funkytown" estreou no festival do Rio com a sala lotada em plena sexta-feira à tarde. É um seríssimo candidato a blockbuster dada a variada gama de personagens em seus dramas pessoais: o dono de uma boate sem preceitos éticos para obter o máximo de lucro possível, as vaidades dos profissionais do meio televisivo em busca de riqueza e glamour, a luta cotidiana para manter um casamento de pé entre assédios de beldades e ofertas de droga barata e a negação de "sair do armário" no seio de uma família conservadora italiana. Tudo isso bem costurado em um roteiro que segue os dogmas do cinemão hollywoodiano; apresentação de personagens/primeiros conflitos/evolução dos clonflitos/clímax/ e final.
Segundo longa-metragem do diretor - nascido em Quebec em 1970 - , "Funkytown" não chega a surpreender, mas recomendo pela segurança da direção em um filme tecnicamente correto.

domingo, 9 de outubro de 2011

A volta dos vinis (11) - "Viver e morrer em Los Angeles" - trilha sonora


Wang Chu é o nome do duo formado pelos músicos Hues Jack e Feldman Nick; na ativa até hoje, após alguns períodos de tormenta, a dupla londrina teve seu auge comercial na metade dos anos 1980. A trilha sonora do filme "Viver e morrer em L.A" explica esse êxito.
O interesse em falar sobre o disco está na síntese da sonoridade oitentista apresentada pela dupla: não conheço nenhum álbum da época tão paradigmático quanto às propostas estéticas "pop" dos anos oitenta. Está tudo lá; o uso "indiscriminado" dos sintetizadores "cifrados" por Prince, bateria eletrônica à revelia, a batida seca e frenética da caixa e a incorruptível e errônea sensação de salto à modernidade. Pode soar datado mas não deixa de ser emblemático.
O lado A abre com "To Live And Die in L.A", sucesso radiofônico do disco, que ganhou o 41º lugar na Parada da Billboard. "Wake up, stop dreaming" é outro exemplo de pop bem sucedido da época, com um poderoso refrão impregnado de teclados "clean" - duas faixas menos inspiradas fecham esse lado. O segundo lado - melhor - é todo instrumental e consegue dar o tom "noir modernoso" que paira sobre o filme; uma espécie de thriller onde agentes secretos da CIA e o Departamento de polícia de Los Angeles competem entre si no quesito "corrupção" - Willen Defoe protagoniza a película.
Bela trilha para pegar o carro de manhã e curtir um sábado ensolarado de praia, com a certeza absoluta de estar em 1986; quais são as vantagens de estar em 1986? Bom, isso mereceria um outro post.

domingo, 2 de outubro de 2011

Cinema - "Medianeras" de Gustavo Taretto


Primeiro longa-metragem do diretor porteño Gustavo Taretto, "Medianeras" é uma moderna e engenhosa comédia de desencontros, encontros e tarja-preta. O filme começa com uma narração em off do protagonista sobre as relações entre paisagem arquitetônica de Buenos Aires e a paisagem "interna" de seus habitantes - humor tipicamente argentino. Oscar Wilde dizia que o "pessimista é um otimista bem informado" e nossos vizinhos hermanos sempre foram muito céticos em relação à condição humana. Se no final do século XX - antes do advento da internet - filósofos franceses já nos alertavam sobre o excesso de individualismo do homem contemporâneo, imagine no ano de 2010; sexo, comida, trabalho e diversão - você pode garantir tudo isso sem sair de seu apartamento. E solidão, muita solidão.
Martín é um web-designer que foi abandonado pela namorada; não tem amigos, passa doze horas diárias em frente ao computador; a única recordação da amada é um cachorrinho que ela deixou pro rapaz cuidar. São os únicos momentos que Martin desce de seu apartamento pra ver a luz do dia. Pilar é vizinha dele. Sofre de fobia de altura e terminou uma longa relação depois de inutilmente lutar contra o "superego" do namorado. Seu trabalho consiste em projetar vitrines de moda feminina; passa mais tempo entre manequins do que entre seres humanos. A incomunicabilidade enfrentada por Martin e Pilar em relação aos seus semelhantes é um traço comum de suas personalidades - e exatamente essa característica os unirá. Roteiro muito bem costurado, atuações despretensiosas e uma fotografia que ilustra com primor tensão/estética urbana. Imperdível.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Cinema - "Inverno da alma" de Debra Granik


- Mãe, será que dessa vez, você pode me ajudar?
A frase é da jovem Ree Dolly - interpretada com maestria por Jennifer Lawrence - que tenta, pela enésima ocasião, apelar aos instintos maternos de sua transloucada progenitora, mergulhada em alcool e desolação, para sair do abismo em que vivem.
"Inverno da alma" é um filme triste, desses que se deixa a sala de cinema e se acende um cigarro imaginário - no meu caso - para rever e refletir sobre as cenas de privação e de angústia vividas pela protagonista. Ela tem somente 17 anos e é forçada a cuidar dos irmãos pequenos e da mãe viciada. Seu pai - um mestre em refinar "speed", heroína + cocaína - desapareceu sem deixar rastros; o problema é que ele deve a justiça e se não aparecer ou for dado comprovadamente como morto, o Estado tomará a casa da família, único bem que lhes resta. Gosto quando o cinema americano traduz na tela a realidade de muitas famílias "americanas" de três ou quatro gerações que "não deram certo"; isso é chocar de frente contra o "american way of fife"; não são emigrantes, filhos de italianos ou romenos, são todos americanos. A película tem como cenário um pequeno povoado de Missouri, rodeado de drogas e pobreza. O pai de Ree Dolly foi visto pela última vez num vilarejo vizinho; ela precisa reunir forças para se deparar com traficantes e marginais locais, em busca do paradeiro dele; ninguém quer falar sobre o assunto. O problema é que seu teto está em jogo, a lei não pode esperar. "Inverno da alma" levou o prêmio do júri de melhor filme no festival de Sundance de 2011. Recomendo.